domingo, 27 de setembro de 2009

25/09 (sexta): SABE QUANDO TUDO TEM CARA DE DESPEDIDA?

Hoje foi assim. Acordamos às 6h horas com a promessa de cumprir um cronograma lotado de tarefas. Acredita que deu certo? O sol tava forte, minha cólica idem, mas rolou. Hoje é dia de Vaquejada (http://migre.me/duFA), festa tradicionalíssima da cidade. Tanto que é feriado nas escolas. Por isso, estava todo mundo na Casa Grande logo cedo. Esperamos os meninos acabarem a limpeza para que filmássemos o Iêdo nos guiando pelo museu. Na bandinha, ele é percussionista, mas além de seguir na música, ele quer ser arqueólogo quando crescer. Se continuar empenhado, vai ser dos bons! Explicou cada área e cada peça do museu Memorial do Homem Kariri com muita propriedade. Meninos de 11 anos não costumam manjar de arqueologia, mas, depois de um semana na Casa Grande, acostuma-se com esse tipo de coisa. Espero que a filmagem saia boa. Sou uma negação atrás das câmeras. Mas pelo menos a fotográfica (profissional, veja bem) eu estou aprendendo a domar aos pouquinhos. A Amanda me ensinou umas coisas e eu gostei mesmo da brincadeira.


Entrevistamos a mãe do Iêdo com a presença dele. A Dona Teresinha é uma querida, só que saímos com a sensação de não ter perguntado tudo o que precisava. Mais uma passada na fundação e fomos até a marcenaria do pai do Arthur (baixista da bandinha), o seu Luís. É ele quem faz parte dos instrumentos da bandinha e outras mil coisas para a Casa Grande. Estava trabalhando, então nos pediu que passássemos em sua casa, por volta das 13h para falarmos com sua esposa também.

Mais uma vez voltamos à fundação. O Matheuzinho (Xixoda) queria que fossemos até a casa dele, para conhecer. Infelizmente não deu tempo. Esse menino é a coisa mais linda. Super atencioso, carinhoso, uma figurinha. Um dos grandes resposáveis pelas minhas lágrimas. Pois é, chorei de novo hoje. Dessa vez com mais dor ainda, porque a hora de ir embora está chegando MESMO. Não queria chorar na frente deles, mas não deu. Dei a câmera na mão da Nati e saí para chorar em um canto, o Xixoda foi para o outro. Acho que chorou também, tadinho.

Já na casa do Arthur, a entrevista com o seu Luís e a dona Evânia fluiu bem. Eles têm 4 filhos e todos passaram pela Casa Grande. Na verdade, apenas um deles saiu, o Luizinho. O Arthur (11 anos) é da bandinha, mas está saindo para tocar instrumentos de verdade; o Aécio (21) é baixista da Abanda e freqüenta (e daí que as regras mudaram, não abro mão do trema!!!) a fundação desde pequeno e o Augusto (9) está para entrar nos Cabinha como percussionista. Além deles, a Evânia também faz parte da Casa Grande, pela cooperativa da fundação. Só os pais deram entrevista e falaram bastante. Ambos se emocionaram ao falar do Luizinho. É a primeira vez que um entrevistado chora na minha frente. Bem tenso... Ainda bem que a fita da câmera acabou bem nessa hora. Aí, até trocar e retomar, deu tempo de descontrair o ambiente. Queridíssimos os dois, só não ficamos mais porque a Marizete estava nos esperando para o almoço.

À tarde, voltamos à fundação. Era um dia de aparar arestas e garantir que não daríamos falta de nenhuma imagem ou entrevista quando chegássemos em São Paulo. Fizemos mais algumas entrevistas, mas não muitas. A cidade já estava toda voltada para a Vaquejada. Os meninos não falavam de outra coisa e a agitação era geral para o evento. Eles me contaram que muita gente vai de bota. Por coincidência e pura falta de noção climática, eu estava com um par de botas na mala. Pra quê eu comentei? Ficaram empolgadíssimos e me pediram para ir de com elas.

Já que pediram, aproveitei e caprichei. Bota, vestido, lenço no pescoço, uma beleza! E, antes que você ria, fui muito elogiada, tá? (risos) Depois do desfile de moda amador, é a primeira vez que vejo uma concentração tão grande de gente em Nova Olinda. A maior parte das pessoas estava no Parque das Vaquejadas (era esse o nome?), mas a cidade estava toda movimentada. Rolava um parquinho de diversões e a meninada falou o dia todo da tal da barca. Era o barco viking. Claro que eu não fui! 1) não achei muito confiável; 2) minha cota de 'nervoso pago' eu reservei para o avião. Pagamos a entrada das crianças e, para a minha surpresa, a Nati comprou uma para ela. Aproveitei para filmar a cena lá debaixo. Quando todo mundo desceu, só ouvia as criancinhas comentando que uma ceeerta pessoa gritou feito uma maluca lá dentro! Era a única com mais de 1,5 m no brinquedo, mas vou manter a identidade dela em segredo. (risos)

Estava me sentindo uma árvore de Natal enfeita com crianças. Era o Matheuzinho em uma mão, o Filipim na outra e o Daniel agarrado na minha cintura. Eu, com a minha mania de saudade antecipada, queria mais é que eles ficassem ali mesmo, bem pertinho. Quando a vaquejada estava para começar liguei a câmera. Desliguei em 5 minutos. A falta de luz e o medo de um boi pular o cercado (e olha que um quase conseguiu) me fizeram desisti. Odiei ver aqueles vaqueiros derrubando os pobres bichinhos e me apavorei com a fragilidade do cercado. Mas, toda vez que eu me assustava, o Matheus me olhava e dizia: “calma, ele não pula não”. Não preciso dizer que fui a primeira a aceitar a proposta de irmos para a Casa Grande, né?


No caminho, passamos na farmácia para comprar sorvete (é, na far-má-cia!) e depois as crianças pararam para balaçar no balanço da àrvore. Lembra aquela pessoa que gritou desesperadamente na barca? Pois é, ela foi para a balança também. E depois me zoa por eu ter me empolgado brincando de passa-anel! (risos)
Na Casa Grande, retomamos os batuques. Nada melhor para uma viciada do que gerar uma legião de viciadinhos!hahahaha As crianças gostaram mesmo da percussão corporal e, principalmente, do batuque de ‘Fome Come’.

Hora de ir embora e começam as promessas de chegar bem cedinho na fundação no dia seguinte. Afinal, teríamos só até as 8h30 para aproveitar. Nesse horário pegaríamos a topic para o Crato.






PS: ensinei o Momô a desenhar com estilete em lápis, como eu faço. Ele adorou e, inconformado com os desenhos, disse que meu estilete devia ter algo de especial. E tem, já que há anos faço minhas artes com ele. Decidi dar a ele de presente. Mais tarde, recebi em troca um lápis desenhado por ele. Tem escrito “Nayla e Momô”, o símbolo da Casa Grande, flechas e até o desenho das lágrimas que derramei enquanto o entrevistava. Esse menino é incrível!


sexta-feira, 25 de setembro de 2009

24/09 (quinta): OI? TCC? (dia de folga merecida e imprudente)

Acordar hoje foi uma dureza. Os despertadores foram ignorados e só conseguimos levantar umas 9h. Pois é, agora já achamos que isso é tarde. Nem me reconheço. Mas, não esperem que eu continue assim em São Paulo. Estou com o status saudável on-line, porém sinto que a conexão é temporária. Veremos!

O dia foi de leseira total hoje. A Amanda estava no clima de ir embora, então aproveitou para comprar tudo que ela precisava levar. Cajuínas, pipocas Gravatá, lembrancinhas, enfim. Eu aproveitei para brincar muito com as crianças. Brinquei de passa-anel, de bater figurinhas, montei quebra-cabeça, corri com elas no pátio da fundação, batuquei, toquei flauta, aquelas coisas que adultos normais costumam fazer. (risos) Claro que a Nati e a Amanda me zoaram: “Nayla, já pra casa!”. Muito adultas elas também, viu?

De útil mesmo, fizemos poucas coisas. Fizemos imagens da Casa Grande, filmamos os meninos limpando o museu, mas, no geral, o dia foi de tirar muitas fotos com as crianças, para aproveitar enquanto a máquina profissional da Amanda ainda estava aqui, e depois brincar muito também. A despedida dela nos conscientizou da iminência da nossa. Tenso. Mesmo!

Já deixamos a Marizete avisada de que hoje almoçaríamos com a Merivan. Ela preparou um almoço maravilhoso e teve a coragem de dizer que estava meia-boca, porque ela fez com pressa. Imagina se fosse com calma, não saíamos mais da mesa! Ela cuida da cantina da fundação, então, apesar de convidadas dela, almoçamos por aqui mesmo. Depois do almoço, mais pasmeira: fotos, conversas, fotos, brincadeiras, fotos, conversas, fotos, brincadeiras... suuuuper produtivo.

Depois do samba, ensinei o baião na percussão corporal. Tem criança que pega muito rápido ( e até nisso os meninos da Casa Grande são diferentes, aprendem rápido e adoram aprender), mas algumas são mais lerdinhas. Por isso ‘inventei’ um baião simplificado. Imagine a cena: eu tocando Asa Branca na flauta, a Daiane (10 anos) cantando, umas 5 crianças fazendo o batuque do baião e, no centro da roda, o Thiaguinho (3 anos) e o Momô (da bandinha) dançando e jogando uma capoeira inventada. Se não deu para imaginar, tudo bem. Amanda filmou! Ou eu chorava, ou tocava flauta. Com dificuldade, optei pela 2ª alternativa. Ah! E o Iêdo saiu lá da rádio, onde estava transmitindo o seu programa, para vir me ensinar o finalzinho da música, que eu ainda não sabia. E o coração, ó, apertadinho... Saudade antecipada.

A Amanda é minha heroína. Quando deu 17h40, mais ou menos, ela entrou no ônibus para voltar par a o Crato e ir de lá para Juazeiro, onde fica o aeroporto. O olho encheu de lágrima, mas a mulher ficou firme e forte. As crianças deram AQUELE abraço coletivo nela. Apertado e demorado de um jeito, que o povo do ônibus começou a chiar. A maioria lá dentro já estava atrasada para a aula e outras atividades que fariam no Crato.

Agora uma dupla, eu e a Nati voltamos à pousada para tomar banho e jantar. Lá para as 20h, voltamos para a fundação. Momô, Iêdo, Renê e Filipim estavam ensaiando uma peça, que eles criaram para um trabalho da escola. Ao som de ‘Ave Maria Sertaneja’, de Luiz Gonzaga, encenaram direitinho. Cada um com sua fala e movimentos bem ensaiados. Deixamos os figuras à vontade e fomos para a rádio ficar com a Valesca (17 anos). Ela faz os gibis, junto com o Jenfte, e desenvolve outras funções na casa. No programa de hoje, ela fez questão de tocar ‘Formato Mínimo’, do Skank. Música que a faz lembrar muito de São Paulo. Essa é uma querida. Mas muito mesmo.

Voltamos para o teatro, e eu fiquei lá no mezanino com o Danielzinho, que estava responsável pela parte de som da peça. Ele me mostrou o mapa de palco do teatro, ensinou como se mexe na mesa de som, na iluminação, mil coisas. Tome, jornalista!!! Com 11 anos, ele sabe muito mais que você! (risos)

Despachamos as crianças para casa, afinal já eram 21h30, e ficamos no laboratório de TV conversando com o Rivaldo. Pedi para dar aquela olhadela no orkut e papeamos até umas 22h. Nesse intervalo, minha mãe me ligou. Sei lá porque (talvez pela proximidade do fato inevitável) tocamos no assunto ‘ir embora’. Caí em um choro, que eu não consegui nem continuar a conversa. De falar disso agora, o olho já encheu de lágrima aqui, mas hoje estou controlada. Ela, que bem me conhece, decidiu me ligar depois, porque sabia que eu não pararia tão cedo.

Voltamos para a pousada, comemos um docinho de banana, tomando cajuína (isso vicia, cuidado!) e conversando com o Jef. Outro figura. Tem 16 anos, mas conversa como adulto. E foi ele quem nos salvou da enorme ameaça de um grilo desgovernado e uma perereca voadora. Ok, o grilo estava quase morrendo e a perereca tinha menos de 10 cm, mas precisavam estar EXATAMENTE na porta do quarto? Sãs e salvas pelo nosso herói, fomos dormir com a promessa de acordar às 6h. Com UM despertador só. Oh, Lord!

23/09 (quarta): PENSE EM UM DIA CHEIO...

Hoje foi! Com 3 despertadores, conseguimos acordar às 5h30 e fomos para a casa da Meirivan. Era para pegarmos o Rodrigo (cabinha) dormindo, mas ele já estava acordado. Conhecemos o pai dele, um querido. Na TV, o noticiário da Record falando do trânsito de São Paulo! Por que, meu Deus? Nem aqui eu me livro disso? E era sobre a 23 de maio ainda, pertinho de casa. Filmamos o Rodrigo tomando café, escovando os dentes e saindo para a escola. Ser um dos personagens principais tem sua desvantagem. Ficamos mais um tempo na casa deles, entrevistando a mãe, o pai e acompanhando a preparação do Thiaguinho (3 anos) para ir à escola. Ele adorou ser filmado. A Nati e a Amanda o levaram até a escola, mas ele ficou inconformado de não irmos buscar.

Fomos novamente ao colégio dos cabinhas, desta vez para filmar o recreio e uns minutinhos deles durante a aula. Antes mesmo de bater o sinal, já estávamos rodeadas de crianças. As perguntas sobre o meu cabelo são variadas e constantes. Não que em São Paulo não me questionem às vezes, mas aqui simplesmente NÃO EXISTE cabelo como o meu. Logo, ele se tornou uma atração à parte, assim como as tatuagens malucas da Amanda. A Nati o povo diz que tem cara de ser daqui, nada de ‘bizarro’nela. No intervalo, além de responder a perguntas, pude reparar que as crianças que não são da Casa Grande também aprenderam meus batuques. E o Luan sempre me denunciando: “bate nos peito pra eles verem”. O mais engraçado é que pessoas que nunca vimos na vida sabem o nosso nome, de onde viemos e o que estamos fazendo aqui. Me sinto uma ex-BBB, do tipo que não fez nada da vida mas, por um acaso, ficou conhecida. "Ei, Nayla" (com aquele sotaque lindo) é o que mais ouço por aqui, cada hora de uma boquinha diferente.

Hoje foi o dia de ir à casa do Momô também. Pegamos a família almoçando e a ideia era fazer umas imagens deste momento e depois entrevistar todos juntos na sala. Mas a dona Cristina é daquelas mães que se sentem mães de todas as criaturas do universo. Além de cuidar dos quatro filhos, um neto, um cachorro e um gato, ainda cuida de vários animaizinhos que ela tem lá no rancho. Galinha, bode, ovelha... tem
de tudo. E, claro cuidou da gente também! Não sossegou enquanto não sentamos para almoçar. Acho que foi a única família que entrevistamos inteirinha mesmo. Depois de lá, a Nati e a Amanda acompanharam a Cristina até o rancho e eu voltei para a fundação, para deixar a câmera carregando e evitar mais uma crise de dor de cabeça, causada pelo excesso de sol. Se o povo daqui está reclamando do calor, imagina as paulistinhas aqui.

À tarde fomos até a casa da dona Irenice, mãe do Samuel e a entrevistamos também. O Samuel foi uma das primeiras crianças a chegar na Casa Grande e hoje, com tudo o que ele aprendeu por aqui, faz faculdade de Audiovisual, é gestor no Sesc Crato e guitarrista (fera) da Abanda. Saindo de lá, as meninas aproveitaram para comprar biquínis. R$ 8!!!! E lindos!

A água acabou de novo, mas dessa vez era a Amanda quem estava debaixo do chuveiro. Da-lhe banho de caneca. E juro, num calor desses, não há coisa melhor. Demos umas belas garfadas na macarronada da Marizete já voltamos para a fundação à noite. Passamos para tomar um sorvete da Cremel que sempre parece atraente, devido ao climinha desértico, mas SEMPRE causa arrependimento depois de umas três colheradas. Doce demais aquilo. Sentamos na frente da Casa e lá ficamos conversando e batucando com as crianças. Dentro da fundação, mais uma rodada de batucadas seguida de um campeonatinho de xadrez. Não preciso dizer que os meninos deram um banho na gente, né? Nem me atrevi! A Nati perdeu do Momô, mas aprendeu um bocado.

De volta para dormir, ainda deu tempo de comer a salada de frutas da Marizete, que é simplesmente incrível. Ah e amanhã é o último dia da Amanda aqui. Meu coração já aperta de pensar que eu também vou ter que me despedir.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

22/09 (terça): DIA LONGO...

Não vou nem tentar me explicar. É claro que a gente não acordou às 5h30, como planejado, e é mais claro ainda que culpamos o despertador. Já eram 8 horas quando as três despertaram. Diz a lenda que eu apertei o botão errado e que a culpa foi minha, mas eu ainda prefiro culpar o aparelho eletrônico indefeso. O pior é que o Rodrigo e a Merivan, mãe dele, se prepararam para serem entrevistados durante o café da manhã (às 6h15); dona Marizete se programou para preparar o café da manhã mais cedo; e, para piorar, ganhamos mais uma tarefa acumulada. A entrevista matutina ficou para o dia seguinte.

Tomamos café de cabeça quente, mas depois relaxamos e tocamos o dia. Fomos até a escola dos meninos da bandinha de lata para conversar com a diretora e pedir autorização para filmar lá, no dia seguinte. Eu não disse, mas nós somos A atração da cidade, no momento. Todo mundo olha para nós como se fossemos extraterrestres, e às vezes acho que somos mesmo. Na escola então, celebridades!rs Ficamos pouco tempo, mas já causou burburinho. Na sala da diretora encontramos 2 meninos da Casa Grande. “Eles ficaram fazendo sambinha na sala e eu trouxe para a diretoria”. Adivinha.... pois é! Era o samba de percussão corporal que EU ensinei!hahahah Não sabia onde enfiar a cara. Ainda bem que não me denunciaram. Ela ia me sentar lá com eles..rs

Voltamos para a Casa Grande e ficamos conversando com Helinho, João Paulo e Aureliano. Esperamos todos os meninos chegarem da escola para entrevistar todos os 6 cabinhas de uma vez. Debaixo de um sol pra lá de quente e com os meninos nada inspirados, não havia como a entrevista sair boa! Mas tudo bem... dá para compensar nos depoimentos individuais. Sem contar que ficaram VÁRIAS crianças em volta da gente durante a filmagem. Ganhamos mini fãs. E nos tornamos fãs eternas delas. Conheci a Yasmin hoje, 3 anos. Ela se apresentou e, quando eu disse o meu nome, ela respondeu com a cabecinha de lado: “já sabia é de antes!”. Entende porque eu to no paraíso?! Cercada de crianças, ensinando batuques corporais e de mesa, vendo a felicidade que elas ficam em aprender e aprendendo todos os dias com elas, ouvindo e contando mil histórias, vendo futuros músicos nascendo... Fora o sol que me racha, isso aqui é bom demais!

Fomos até a casa do Momô (guitarrista da bandinha) para conversar com a mãe dele. Nunca vi uma mulher tão forte! Nos recebeu super bem e contou histórias maravilhosas e impressionantes sobre a família. Pena que fomos sem câmeras, mas já avisamos que ela terá de repetir tudo depois.rs

Depois de muito sol na cachola, fomos almoçar umas 16h30 (é... o povo desistiu de nos fazer almoçar em horários ‘normais’). A dor de cabeça estava forte, então deitamos um pouco. Eu e a Amanda capotamos! Tive um pesadelo horrível e demorei a entender que era só sonho. Voltamos para a fundação umas 20h, a Nati voltou antes. Os meninos estavam correndo atrás dos soldados do Exército. Eles estão em treinamento por aqui também. Ficam desfilando com arma e uma pose que me irrita. Incrível como influencia as crianças! Elas estão brincando de andar em batalhão, atirar com ‘armas de dedo’ e fazem ronda pela cidade.

Para fechar o dia, filmamos os meninos durante a restauração dos instrumentos da bandinha de lata. Passamos no laboratório de TV para papear com o Rivaldo. É ele quem vai nos arranjar imagens do arquivo da fundação. Já que ele é ex-cabinha e atual membro da Abanda, o entrevistamos também. Depois já fomos dormir, com uma nova promessa de acordar às 5h30! Dessa vez TEM que rolar!

PS: Samya, o Iêdo (percussionista da bandinha) te mandou um beijo!

21/09 (segunda): O DIA EM QUE DISCORDEI DO GARFIELD...

Hoje, só hoje, eu não odeio a segunda-feira! Acordar em Nova Olinda é outra história. Combinamos de dormir até umas 9h, mas o cansaço era grande e só saímos da cama às 11h, o que é uma heresia por aqui. As pessoas costumam acordar por volta das 6h, seja para ir trabalhar e ir à escola, seja para cuidar dos deveres do lar. A dona Marizete deve ter achado que a gente tinha morrido, coitada.

A água acabou logo de manhã, claro, comigo debaixo do chuveiro com um tanto de sabonete no corpo. Mas, consegui me virar com os respingos finais. Tristes aqueles (Nati e Amanda) que nem banho conseguiram tomar.

Chegamos à Casa Grande por volta das 12h30. Segunda-feira é dia de reunião e mutirão. A reunião acontece dentro do museu, com umas 15 crianças e, às vezes, um adulto. Lá se define as funções de cada um ao longo do dia. Limpar o almoxarifado, restaurar instrumentos da bandinha de lata, pregar placas pela fundação, filmagens, enfim, tarefas que, se não forem finalizadas na segunda, ficam para terça-feira.

Entrevistamos o Daniel, novo baterista da bandinha de lata, enquanto ele limpava o almoxarifado e depois eu fui ajudar o Momô a pregar placas. Fomos almoçar por volta das 15h, mais uma para a coleção de heresias. Dona Marizete preparou um baião de dois para ninguém botar defeito. Se ela não pode ficar na mesa com a gente, sempre chama o Jenfte, filho dela. Um querido também. Com 16 anos, ele cuida da gibiteca da fundação e, além de escrever roteiros para gibis, é o responsável pela arte final.

Voltamos à tarde, mas já não tínhamos muito o que fazer por aqui. Aproveitamos para entrevistar o Rodrigo (guitarrista dos Cabinha), enquanto ele apresentava o programa de rádio dele. Fora isso, ficamos brincando com as crianças na mesa. Ensinei a umas 3 o batuque da música “Fome come”, do Palavra Cantada (http://migre.me/duIM
). Bastou plantar a sementinha e a coisa se espalhou. Uma criança ensinou para a outra, eu auxiliei os que tinham mais dificuldade e, em pouco tempo, todas elas estavam batucando com garrafinhas. Ah! Aproveitando a onda, ensinei também como fazer um samba na percussão corporal. Incrível como são interessados e aprendem rápido.

Pausa no batuque para o banho. Voltamos as três para a pousada e, durante o jantar, todos os nosso ‘alunos’ vieram nos buscar, de banho tomado e cada um com a sua garrafinha (sim, quase chorei!). Voltamos para a Casa Grande e lá ficamos batucando até umas 22h. Aí voltamos para dormir e com a doce ilusão de acordar às 5h30, para filmar o Rodrigo acordando e indo para a escola. Haja despertador.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

20/09 (domingo): CRATO -> NOVA OLINDA

Para quem está acostumado, 4 horas e meia de sono dá e sobra. Mas acho que perdi a forma. Depois de ter ido dormir às 4h, acordei às 8h30. Um pouco antes das 9h, o Samuel, integrante da primeira geração dos Cabinha e, atualmente, gestor do Sesc Crato, foi nos buscar. Ele mora no Crato, mas vai todo fim de semana para Nova Olinda, nosso destino final. No caminho, já aproveitamos para entrevistá-lo. Foi ótimo, pois fizemos boas imagens dele, enquanto dirigia e respondia perguntas, e da paisagem no caminho.

Já em Nova Olinda, fomos direto para a Casa Grande. O olho encheu de lágrima. É lindo ver a fundação por foto, mas é inexplicável estar dentro dela. Os meninos já correram para nos receber e nos apresentaram aos outros que estavam na Casa. A Casa Grande é o local para onde eles vão depois da escola. Lá, além de brincar, eles trabalham de acordo com suas funções. Há laboratórios de rádio e TV, gibiteca, DVDteca, teatro, museu, etc. Prometo que explico BEM melhor no documentário, mas, por enquanto, fica o site para quem estiver interessado em conhecer:
http://www.fundacaocasagrande.org.br/ .

Os pais das crianças da Casa Grande criaram uma cooperativa e é deles a responsabilidade da hospedagem. Algumas famílias construíram pousadas no próprio quintal e é em uma dessas que estamos, a casa da Dona Marizete. Nos recebeu mais do que bem e preparou um lanche maravilhoso, que deixou o do Bob’s (aquele de Recife) no chinelo! Passamos a tarde toda na fundação. Entrevistamos Alemberg, o fundador da casa, o Rodrigo, um dos Cabinha, e os meninos da Abanda (que já são adultos, entre 20 e 22 anos, e têm suas funções na fundação). Tentei ficar alheia ao futebol, mas o Helinho (integrante da Abanda e palmeirense roxo) fez questão de me informar sobre a derrota do Todo Poderoso. Sem problemas. Precisávamos de 7 pontos em 3 jogos para brigar pelo título. Mas quem precisa desse título? Temos dois na temporada, o Brasileiro não é a nossa meta. Mas ok, de volta ao Cariri.

O dia foi produtivo e ainda íamos para a sessão de cinema. Já que foi cancelada, Iêdo e René (11 e 10 anos) foram nos buscar na pousada. Nova Olinda é realmente uma cidade minúscula. Nossas opções para o dia eram um desfile de modelos amadoras para a inauguração de uma loja, ou o velório de uma mulher que morreu atropelada. Os dois atraíram bastante público, mas escolhemos o desfile, claro. Era O evento da cidade e estava LO-TA-DO. Os meninos logo quiseram ir embora e, depois de ouvir “temos 3 modelos muito melhores aqui”, acatamos o pedido. Eles nos levaram à “melhor sorveteria de Nova Olinda” e depois voltamos para a Casa Grande, que também fica aberta à noite. Batucamos, brincamos, dançamos reizado (joga no Google, não vou explicar!rs) e, claro, entrevistamos os meninos. Jornalista com câmera na bolsa é um problema!

Dormir foi tenso! Calor infernal, uma aranha laranja no quarto, sem abajur (ainda tenho medo de escuro, e daí?!), e o pior de tudo, não eram nem 23h30! Para pessoas noturnas, como eu, dormir a essa hora é quase impossível. Mas o ritmo das crianças aqui é acelerado te cansa o suficiente para dormir cedo.

19/09 (sábado): SÃO PAULO -> RECIFE -> JUAZEIRO -> CRATO


* Para quem ainda não entendeu exatamente o que estou fazendo aqui em Nova Olinda (CE), eu conto: meu TCC é sobre um projeto da Fundação Casa Grande (http://www.fundacaocasagrande.org.br/)chamado 'Os Cabinha'. Trata-se de uma bandinha de lata, onde os instrumentos e as composições são feitas por crianças. Ninguém é obrigado a participar da bandinha, se aproximam aqueles que começam a se interessar por música. Cada um escolhe o seu instrumento e eles vão se desenvolvendo conforme os ensaios e os shows. Já houve várias gerações de cabinhas e a atual está prestes a passar a bola para os mais novos. Nosso objetivo é apresentar a Fundação Casa Grande para quem não conhece, contar a história deste projeto e mostrar essa fase de transição. Estamos entrevistando antigos e futuros cabinhas. Alguns deixaram de ser cabinha para se tornar músico de verdade, outros se identificaram mais com outras áreas da fundação, como rádio, tv, etc. Uma das gerações antigas hoje é uma banda de jazz, para vocês terem uma ideia. *

Pois é, adiei o quanto pude, mas chegou o momento de viajar de avião. Se eu fosse passar um mês aqui, juro que vinha de ônibus. Pena que não era o caso. O frio na barriga começou no ônibus da Gol que peguei de Congonhas para Guarulhos. Um amigo me disse são maiores as chances de eu cair em um bueiro que a de um avião cair. O fato é que, se eu tiver que cair em um bueiro ou com um avião, quero estar em um sono profundo, para não ver nada! (macabro, mas é verdade, fazer o que?). Então, além de virar a noite acordada de sexta para sábado, ainda tratei de tomar um Dramin antes de voar. Claro que o nervoso não me deixou dormir.

Como eu já esperava, odiei a experiência. “Depois que você voar a primeira vez, não vai querer parar”... BA-LE-LA! Detestei e, por mim, eu ficava ali em Recife mesmo e nem pegava o voo para Juazeiro! Mentalizei (FORTE) um ‘final feliz’ do início ao fim do voo. A tranquilidade da Nati ao meu lado era tanta que hora me acalmava, hora me irritava (inveja pura!). Como pode?!?! Eu não conseguia nem interagir muito. Depois de umas 2 horas de voo, desisti do meu nervoso. Mas, assim que iniciamos o processo de pouso, ele voltou com força e só foi parar quando pisei no chão. Jorge du Peixe, do Nação Zumbi, viajou ao meu lado, o que, ao invés de me empolgar, me fez pensar nas possíveis manchetes que sairiam na mídia, no caso de um acidente. Mas, com esforço e com a humilhação causada pela empolgação de uma menininha de 3 anos com a viagem de avião, consegui afastar os pensamentos do mal.

Minha passagem em Recife se resumiu a ir ao banheiro, comer no Bob's, perder meu casaco, reencontrá-lo no achados e perdidos, preencher e assinar um formulário gigante (no auge do atraso para o embarque), jogar um refrigerante inteiro no lixo (e depois descobrir que não precisava) e me preparar psicologicamente para mais um voo, até Juazeiro. Estávamos quase pousando quando o piloto avisou: “temperatura em Juazeiro, 37°C”. Desde então, só tenho usado chinelo e roupas que não cubram nem as pernas e nem os braços. Esse Estado é quente demais, meu deus!

O aeroporto de Juazeiro é mais do que simples, sem estrutura nenhuma. A Mari, ex-acessora dos Cabinhas, foi nos buscar com um amigo taxista e nos levou para o Crato, onde ela mora. Como eu temia, o Dramin começou a fazer efeito no Crato. Capotei no carro, indo de Juazeiro pra lá, depois no chão, encima de uma mala, e, com custo, me convenceram a ir para a cama. Já à noite, saímos para comer algo na Praça da Sé (pois é! De mesmo nome que a de São Paulo, mas com 1/15 do movimento) ao som da banda marcial do Exército, que está fazendo treinamento no Ceará.

Depois voltamos para tomar banho e nos arrumar para a festa que rolaria no Café Estação. Show ao ar livre, pessoas divertidas, muita conversa e muitas perguntas. Nem parecíamos nós as jornalistas. Incrível como fomos bem recebidas. Se dependesse das pessoas que conhecemos, passaríamos pelo menos um mês por aqui. Saímos de lá umas 3h30 e fomos dormir por volta das 4h. Tentei deixar meu lado boêmio em São Paulo, mas ele se recusa a ficar longe de mim.